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Sobre amar as pessoas

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Como esse é o primeiro post do meu blog decidi compartilhar um texto que eu escrevi em um dia que eu estava muito feliz. Esse texto foi publicado na Obvios, que é um site colaborativo, voltado para o compartilhamento de cultura, onde aspirantes a escritores se arriscam dando suas opiniões sobre os mais diversos assuntos e dividindo textos pessoais. Aqui no Blog, eu vou dedicar para contar eventos importantes da minha vida que eu acho que possam inspirar alguém. Enquanto eu não passo esses textos para o computador, compartilho o próximo texto, inclusive, recomendo que quem ainda não conheça o site dê uma passadinha nele, tem muito conteúdo bacana, vale a pena.

 

Naquele ambiente cinza de cidade com poucas belezas naturais, com raios de sol lutando em um alongamento contorcionista entre os prédios para conseguirem tocar a ponta de nossos pés e finalmente serem vistos e sentidos por nós, o que mais me faz sentir de verdade, são as pessoas.

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Eu amo as pessoas, com todos os suaves poros que compõe a carne frágil do meu coração. Parece uma forma um tanto exagerada de se expressar, mas é do que é feita a realidade por trás do amor, um coração de carne poroso que sangra e cura o corpo inteiro dos segundos de morte até o segundo em que baterá novamente. Nada do que dizem tira esse amor de mim. Nem os Rocks políticos, nem as senhoras tristes, o açougueiro destruidor de corações, a mídia destruidora do amor que faz os corações baterem, nem os dias chuvosos destruindo muitas vidas humanas conseguem me convencer de que amar as pessoas não é a melhor escolha. Bem, no meu caso não é bem uma escolha eu sinto ou não sinto, não escolho muito bem.

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Andar pelas ruas do centro do Rio sentindo tudo ao redor é um de meus afazeres preferidos. Naquele ambiente cinza com poucas belezas naturais, com raios de sol lutando em um alongamento contorcionista entre os prédios para conseguirem tocar a ponta de nossos pés e finalmente serem vistos e sentidos por nós, o que mais me faz sentir de verdade, são as pessoas. Como eu gostaria de fotografar todas elas, todas, sem exceção. Elas com seus olhares e conversas triviais, gargalhadas, afazeres, divagações, instintos e aprendizados. Ah, quantos aprendizados! Elas mesmas não percebem que estão aprendendo com tudo, em todos os segundos… A piada que o porteiro contou ao entregador de documentos fez esse jovem e cansado entregador rir fabulosamente sem se preocupar com o costumeiro amarelado em seus dentes, que tiram dele a graça de viver. Nesse momento, ele aprendeu mais sobre humor, sobre valorizar a própria vida, sobre se conectar com desconhecidos, sobre o que fazer para rirem dele e não rirem também. Que gostosa sabedoria em dez segundos de riso.

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O vendedor de pipoca que insiste em alimentar adultos com comida de criança tem esperança de que o cheiro da pipoca doce invada os herméticos edifícios do centro e tornem todos mais felizes. Quando eu comprei uma pipoca com ele, ele disse que gosta de pipoca desde pequeno e que a barraquinha era de seu pai. Ele não conseguiu se desfazer da ideia de um futuro melhor e permanece vendendo comida de parque de diversões em frente aos prédios cinzas. Sua profissão nos ensina a tentarmos ser melhores.

A menina que tropeça na poça d’água e suja todo o seu pé e pernas utilizando uma sapatilha, aprende que seus calçados foram criados para torná-la uma boneca e não para protegê-la, e nesse instante, essa descoberta a faz sentir-se mais selvagem do que nunca, ao perceber que a realidade da selva está em todos os lugares, até mesmo sobre as pedras polidas das cidades.
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Senhoras sentadas na Praça da Cinelândia vendo com liberdade outro ângulo do corpo de estátuas mais velhas do que elas, aprendem novas partes do corpo humano não observadas até então; homens tomando sorvete de casquinha tentando quebrar a seriedade dos dias e no segundo em que sentem o sorvete mudar de estado físico em sua boca, aprendem sobre leveza; entregadores nordestinos em suas bicicletas ouvindo música de sua terra natal e cantando alto para todos ouvirem a saudade que eles sentem sem sentir; o jornaleiro lendo as revistas novas que chegaram em sua banca; os seguranças dos prédios aprendendo tudo sobre si mesmos em seu silêncio mortífero e entendendo mais do que nunca a necessidade de repressão aos que não refletem sobre seus atos e prejudicam o outro; tem uma moça de vestido branco de bolinhas pretas levíssimo sendo levantado em uma daquelas saídas de ar sagazes presentes em algumas calçadas, ela estava com uma calcinha creme, e seus segundos de desespero para esconder o que um sopro de liberdade na cidade quis mostrar a fez refletir sobre a real importância da roupa e o porquê de ter que esconder o que não é mistério para ninguém há mais de dez mil anos; uma briga do outro lado da rua, um carro passou o sinal fechado, alguém quase morreu, o transeunte brigou feio- com razão- com o moço que dirigia disperso, eles aprenderam sobre o tempo, segundos antes e segundos depois.

Há muito de fantástico em todos os lugares. Em quase tudo há amor, e em tudo há sabedoria e esperança. Todos os lugares são os mais lindos, onde houver você, que está lendo e certamente é magnífico. Basta estarmos abertos para aprender sempre, que aonde formos, viveremos a grande aventura humana que é a de amarmos uns aos outros e sentirmos o maior e mais completo preenchimento que existe.