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A aventura de viver

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Outubro de 2015,

Acho que encontrei a maior cachoeira do Rio de Janeiro, chama-se: “Conde d’eu”! Ela me parece linda nas fotos, na verdade, é mais do que isso, tem uma exuberância que a palavra exuberância envergonha-se de adjetivar. Fica tão longe, depois de Teresópolis, no município de, Sumidouro. Li que o seu nome humano veio de uma homenagem ao marido da princesa Isabel, Conde d’eu. Que nem perto, chega em beleza e graciosidade dessa gigante molhada.
Nossa, quero conhecê-la! È isso, daqui há 4 horas chegaremos nela, eu e o Gu. Levaremos nossa barraca de camping, uma mochila com roupas de banho, toalhas, máquina fotográfica, muitos sanduíches, frutas, chocolates e kit primeiros socorros, e só! Vamos nos encontrar em um outro lugar. Ver aquilo que sobrevive, como nós. Nessa mesma idade do Universo!
A vida é tão boa! Me parece tão fabuloso ter tantos sentidos para desfrutar das diferentes formas da vida. Tantas cores, expressões, adaptações, tantos gostos… Acredito que nunca me acostumarei com o viver. Esta sensação de que tudo é sempre novo me persegue, e com isso, vou vivendo extasiada e surpreendida. Tanto com o bom quanto com o ruim, na mesma medida. Do micro ao macro. Sou completamente apaixonada pela Terra! Minha percepção da vida é visceral, mas um visceral que a razão acompanha para que a flor que mora em minha pele não morra sem perceber afogada em tanta água.

Estamos a caminho de Teresópolis faz 2 horas, estamos adentrando a superfície das montanhas, estamos subindo a serra! Aqui, ela exige silêncio e corta nossa audição aos poucos, nada deve ser ouvido, a não ser as batidas do próprio coração. Gustavo diz:
– Meu ouvido está tampado! Não irei falar agora.
E eu digo:
– È isso, apenas observe!
Chegando em Teresópolis, buscamos alguma informação sobre como ir para sumidouro, e todos dizem que para chegar a esse lugar é complicado, só tem 2 ônibus por dia. Que teríamos que ir mais cedo. Que ir de carro para lá também era ruim. Chegamos quase na hora do almoço. Não chegaríamos em uma boa hora na mata, afinal, ela acorda cedo e dorme cedo também.
Felizes por sentir estar em uma aventura- como sempre-, sem muito planejamento, nem mapas, perguntamos sobre algum lindo lugar o mais próximo possível dali, e um motorista de ônibus simpático nos indicou:
– Conhecem o Parque Nacional de Teresópolis? Lá é espetacular! Peguem o ônibus, deixa em frente, lá tem camping, também!
Ficamos animadíssimos e fomos, só que decidimos por ir andando! Foram uns minutos de caminhada, muito valorosos. Nossos pulmões começaram a reconhecer o ar puro do local e nossas conversas ficaram ainda mais leves. As flores avistadas pelo caminho só haviam naquela localidade, e cobriam-se de tantas e tantas cores diferentes.
Eu abri o meu potinho de metal levado para guardar pedras, flores, insetos falecidos e tudo o mais que eu pudesse levar para casa, de recordação. O Gustavo sorria, em paz.
Estávamos quase chegando ao Parque quando ouvimos um som maravilhoso de Gaita, vindo estridente de alguma casa amante do Folk Music. Havia banjo também! E quanto mais nós caminhávamos, mais a música ficava alegre e estridente. Percebemos que esse som estava vindo se encontrar conosco com toda a sua emoção, então, decidimos ir até ele também. Ele saia pelas portas e janelas abertas de uma loja que consertava e restaurava móveis antigos . Um homem chamado Dani boy, os tocava, na maior humildade do mundo.
Entramos em sua loja, paramos em sua frente, e começamos a bater palmas, fazendo algum som com ele. Ele ficou animadíssimo, e tocou por inteiro duas composições suas, disse que estava começando no banjo- apesar de já ser muito bom. E a gaita, ah, essa ele tocou por uma vida inteira! Perguntei a ele onde foi que havia conhecido a gaita e ele disse que um amigo surfista nos anos 70, apresentou a ele e ele nunca mais a largou. O amigo? Nunca mais viu! Mas percebi que ele o guardou dentro de alguma música feita em sua gaita presenteada, há mais de 30 anos.
Ficamos por 30 minutos com ele, rimos, ouvimos boa música e seguimos em nossa aventura pensando em como é bom caminhar… como é bom não se planejar tanto. Agir assim, é permitir surpreender-se.

Chegamos ao parque, era absolutamente lindo! Mais do que poderíamos imaginar! Estava sol, tudo estava iluminado, as rochas estavam quentes, a Terra estava fértil debaixo de nossos pés, e havia tantos insetos trabalhando.
Demos nosso primeiro mergulho na primeira cachoeira que avistamos. Ela era, na verdade, o caminho do curso d’água, não era o inicio nem o final, estava no meio, e ali formavam-se lagos cristalinos, cheios de peixes e lavadeiras dividindo um com o outro o seu almoço, havia poucos mosquitos, acho que haviam comido todos.
Ficamos ali, conectados com tudo, por muitas horas, apenas apreciando. Muito tempo depois decidimos explorá-la. Ativando a adrenalina, andamos contra a corrente e pisamos em pedras pontiagudas,  tudo para ver o que havia atrás das enormes pedreiras que se interpunham no caminho da água. Descobrimos um cemitério de insetos e folhas, um cheiro terrível. Havia muitas teias de aranhas enormes e borboletas, umas 30, todas pretas. A água parada ali fazia espuma e não se movimentavam mais. Descobri que água morta vira espuma, como a espuma das ondas do mar que simbolizam o fim do caminho da água de todo o Oceano. Talvez, os cientistas tenham uma explicação mais precisa do que a minha sobre o fenômeno da espuma, mas acredito que eles irão se ater ao corpo daquela água, eu fico com a morte espiritual ou energética dela, eu realmente acredito que tudo tem energia, até mesmo as pedras da rua, como a água não teria?
Depois de toda essa diversão, continuamos a explorar o Parque, só estávamos no inicio dele. O nosso camping ficava em um dos pontos mais altos do Parque que tinha trilha para o dedo de Deus, faríamos ela na manhã seguinte, que seria um domingo. E mais uma surpresa tivemos: o Parque em sua parte média tinha um enorme lago de água corrente, era enorme mesmo. Era lindo, parecia que estávamos voltando no tempo, estávamos dentro de uma natureza quase intocada. Dissemos que ao final do dia, mergulharíamos ali.
Continuamos a seguir, até chegarmos ao camping, que para a nossa nova surpresa não tinha ninguém. Era todo nosso! Um camping com graminha muito verde, cortada simetricamente para afundar somente os nossos pés. Tinha banheiro limpo com água quente e muitas árvores em volta. Montamos a barraca e percebemos o quanto éramos felizardos por isso. A nossa companhia é tão boa. Dentei no chão e joaninhas pousaram em meu nariz.

Gustavo pediu que eu o ensinasse o treinamento de muay thai que eu tive no último mês antes de sair das aulas. Corremos e brincamos por todo aquele campo, éramos somente água e sal, sem sofrimento. Decidimos repentinamente descer todo o caminho correndo e mergulhar no lago maior, e assim fizemos. Descemos gargalhando e competindo na corrida, com o Gustavo me ganhando ao final, como sempre. Eram cinco da tarde. Não havia ninguém no lago, um lindo e imenso lago. Tão lindo que não me lembrei de fotografar. Levamos lanche para fazer piquenique. Mergulhamos e namoramos extremamente apaixonados, como se estivéssemos nos conhecido ali. Criamos histórias divertidas e no final de nossas risadas percebemos que nem mesmo os pássaros nos espiavam, somente uma pomba, a pomba mais linda que eu vi na vida. Uma pomba selvagem, marrom e branca, incrivelmente bela. Ela apaixonou o Gustavo por alguns minutos. Todos deveriam conhecer a verdadeira essência dos pombos. È algo que eu tive que ressaltar neste texto, pois a beleza e limpeza dela me marcou. São como humanos fora da cidade: limpos e bem mais puros!
Engolimos nosso lanche com os últimos raios de sol do dia, estávamos certos de que aquele dia havia sido mágico e que lembraríamos para sempre.
A noite caiu e o céu cheio de estrelas já era aguardado. Pensei por mais que o nosso relógio cronológico siga para o futuro, o relógio da Terra parece girar ao contrário de nós. Ela se depara ao final de cada dia com o seu passado negro, de estrelas surgidas na grande explosão, algumas nem estão mais lá, pois já morreram. Todas as noites, metade da Terra volta no tempo enquanto seguimos mais velhos do que éramos na manhã do mesmo dia. Antes de dormir, decidi tomar um banho quente, e algo sublime e completamente novo me aconteceu: o banheiro do camping estava cheio de insetos, uma quantidade enorme, uma variedade incontável. Mais de 100 insetos diferentes se refugiando do frio e dos predadores naquela casinha branca no meio da floresta. Quantas borboletas, grilos, joaninhas em quantidades absurdas, não havia lugar para mim, mas mesmo assim eu decidi me banhar e todos aqueles seres me sobrevoaram, borboletas pousaram em mim, asas de seres mortos caiam ao chão. Recolhi uma enorme quantidade de insetos e trouxe para casa. Me senti próxima de Deus, em mais esse instante na Terra. Eu era tão pequena quanto aqueles seres, estávamos juntos sobrevivendo. A diferença é que eles me ensinaram algumas coisas sobre a vida, sobre o amor, sobre a criação e eu não ensinei nada a eles.

Eu nunca havia ouvido a mata da forma como eu ouvi esse dia. Estávamos em um camping no alto de uma montanha, próximo ao Dedo de Deus. Era uma natureza próxima a selvagem. São sons variados, muito vivos, na verdade, são ensurdecedores depois de um tempo. Não há paz na noite da selva. Ali eu entendi tudo, o quanto somos frágeis. Entramos em nossa barraca e eu tive a pior noite da minha vida!
Por uma distração tremenda, não levamos nem casaco, nem colchão, nem coberta. A noite foi tão fria. Um frio com umidade vinda do chão. Foi tão dolorosa essa noite. A respiração das árvores pode nos matar. A cada torturante hora, esperávamos pela luz. O Gustavo, em um ato heroico, disse que não sentia frio, e me cedeu um único lençol que tínhamos, eu acreditei que ele não sentia frio, mas depois ele me confessou que estava trêmulo por dentro. Não sei o quão admirada fico por esse homem.
Por incrível que pareça, estávamos cheios de disposição pela manhã. O camping encheu pela madrugada, não sei como tantas pessoas chegaram ali tão tarde. Tomamos um café da manhã incrível no Parque, pela metade do valor do Rio. E então, fomos fazer a trilha mais alta do local! O tempo acordou mágico de uma maneira diferente. As nuvens desceram e decidiram tocar as árvores. No meio do envolver de árvores e névoa estava a luz do sol, sacramentando a vida. Foi uma das iluminações mais bonitas que vi o sol fazer. Eu e o Gu estávamos ali no meio, com aquela nevoa nos tocando, estávamos em uma dança estranha. Eu me emocionei. O Guga se maravilhou. Vimos gotas de chuva se formar um palmo acima de nossos ombros. Todos os insetos estavam pousados nessa hora. Havia uma mensagem que somente os seres integrados por completo entendem, a nós humanos só resta respeitar e se maravilhar, pois nós nunca entenderemos. E assim fomos, mata adentro. Não percebemos que uma tempestade se formava e continuamos a subir. Vimos borboletas com asas transparentes a cada metro que subíamos, a cada passo eram mais e mais borboletas com as cores da neblina. E então, a chuva chegou! Nenhum medo nos tomou, no entanto meu equipamento fotográfico estava na mochila, tivemos que correr. Mais uma emoção: descemos a montanha correndo e sentindo a flor da pele latejar.
Não restava nada mais a se fazer a não ser ir embora! Sentindo a existência validada. Percebemos que no final, não gastamos quase nada de dinheiro. O passeio inicial idealizado não aconteceu e na verdade ganhamos muito com isso. Não nos organizamos em nada, só nos demos o luxo de não sermos pragmáticos e acreditar na vida. Acreditar que tudo de melhor pode acontecer, só depende de nós, depende da forma como enxergamos tudo ao nosso redor.

 

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Pedreiras que subimos na primeira cachoeira do caminho.

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Gustavo vendo o vídeo do Dani Boy.

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Sentindo a água.

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Sombra, luz e água! O antes, o depois e o agora!

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Deixada pelos pássaros de café da manhã para as árvores…

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A doce água que lambia as quentes rochas avermelhadas…

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Buracos que a vida fez…

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